segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

love has a nasty habbit of disappearing over night


Sugestão de música para acompanhar o post:

The Beatles - i'm looking through you



Depois que decidiram morar juntos, ele acordava todos os dias antes dela. Abria os olhos e logo a procurava ao seu lado, admirando seu semblante, sempre agradecendo a Deus o presente que lhe fora dado. Ela era linda, alegre; acordava todos os dias de bom humor e logo transformava o ambiente. Logo no início do namoro ela o ajudara a se organizar, a largar o fumo, a cortar periodicamente as unhas (até as dos pés)!

A amava muito, fazia tudo por ela.

Cuidava do café, a levava ao trabalho, ligava para saber do seu dia; sempre levava uma surpresinha na hora de buscá-la. Sempre!

E foi assim, com muito empenho, que viveram por 10 meses morando juntos.

No terceiro mês, o café para ela não era mais necessário, pois na empresa sempre tinha comida, e assim economizavam. No quinto mês os chefes da empresa não queriam mais os funcionários nos celulares durante o expediente. No oitavo mês ficou mais fácil deixá-la no metrô para que não pegassem tanto trânsito no caminho do trabalho dela.

Os amigos dele questionavam todas essas mudanças, que ela não via que tudo isso interferia não só na vida dela, mas na dele também e etc. Ele, buscando parecer estar sempre tranquilo, respondia que eram circunstâncias da vida, mudanças comuns de rotina que o dia-a-dia nos impõe. Não queria pensar naquilo. E seguiu amando-a. Mas os amigos 
haviam lhe deixado com uma pulga atrás da orelha.

À noite, já em casa, tocou no assunto da maneira mais sutil que conseguiu. Perguntou se ela não ficava chateada por todos os pequenos detalhes que constituíram o relacionamento deles estarem desaparecendo da rotina. Ela desconversou. Disse que todos os casais passam por fases, e que ele era muito criança em achar que são essas pequenas coisas (a falta delas no caso) que determinariam um relacionamento; os adultos têm vidas próprias, e os indivíduos de um casal não deveria se privar disso.

Depois dessa conversa, ele começou a fazer academia e jogar voley no clube após o expediente. Por conta disso, chegava meio tarde em casa, e passou a não ir mais a padaria ou supermercado buscar as surpresinhas. A endorfina passou a curar o vazio que vinha sentindo, e que não sabia o que era.

Um pouco depois de completarem 10 meses em que moravam juntos, ele acordou atrasado, pela primeira vez na vida! E não a procurou a seu lado. Não a olhou e nem bateu seu papo diário com deus. Tomou seu banho correndo pensando no atraso. Justo ele, tão responsável, tão regular, tão sistemático. Se trocou, não a acordou e foi embora para o trabalho, sozinho, sem se lembrar de sua amada. Deixou seu celular em casa, pela primeira vez na vida!

Naquele dia se forçou a trabalhar mais e, depois do expediente, resolveu dar uma malhada mais forte, mais longa.

Chegou em casa tarde, ela puta.

Onde estava? Porque não a acordou pela manhã? e o celular? e o café? e as surpresinhas? e ela ter de ir de metrô para o trabalho?

...


Não sabia o que dizer a ela. Havia passado o dia inteiro com todas essas perguntas na cabeça, mas se forçou a focar sua atenção nas tarefas do dia para evitar a reflexão e a chegada em conclusões não precisas (ou não agradáveis).

Na verdade, algumas dessas questões estavam em sua cabeça há muito tempo, ele só não estava querendo processá-las de forma inteligível.

Ela queria respostas.

Ele em silêncio.

Foram dormir sem resolver.

Quando ela acordou no dia seguinte, ele não estava mais lá, e não mais voltou.

Ele? Naquele dia, acordou sem seu despertador. A procurou; olhou-a sem a admirar. Ela não parecia diferente, mas havia mudado. Olhou além dela; não era mais a mesma.

Levantou, fez uma grande mala, e se foi. 

Um comentário:

Unknown disse...

Deco, este prosador está descobrindo a vida, atento ao que o rodeia, vivencia a paixão e o desencanto,não carrega mágoa, nem pesares, está acima do senso comum; descobre a vida com uma maturidade evoluída. Serenidade e dinamismo, são marcas deste ser que se constrói na escrita e na vida. Um desejo: bota pra foder, a literatura é campo aberto, vem com tudo, liberte-se das regras politicamente corretas, linguisticamente mostre maturidade sem esconder a juventude! Bravo, bravo, bravo. (foram perfeitas as indicações das músicas) gosto desta mistura. Encantada, JUUUUliana Canezim!!!